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Jornal Info no. 12

Os sandinistas  no poder: a inviabilidade da Frente Ampla  (1979-1984)

                                                                                           Prof. Dr. Ricardo  Rabelo

            A trajetória do sandinismo no governo não é linear  nem por etapas, mas se dá a partir de uma concepção, errônea por princípio, de que uma revolução popular pode realizar  seu programa em aliança estratégica com a burguesia nacional ou estrangeira  e manter seu poder sem contestações. Outro aspecto problemático na linha politica sandinista no início do governo é a crença de que é possível manter uma posição de não alinhamento e continuar mantendo relações normais com o imperialismo norte americano.

A resposta da burguesia e do imperialismo é o que vamos analisar neste artigo, mostrando na prática a impossibilidade de uma Frente Ampla , estabelecida para derrotar a ditadura de Somoza, se consolidar de forma pacífica uma vez  que se pretende implantar uma nova sociedade e um novo modelo de desenvolvimento, Ao contrário do que pensam muitos teóricos, a burguesia está, nos países  da América Latina, intrinsecamente vinculada ao imperialismo estadunidense. A Revolução Sandinista prova que não se pode estabelecer uma união genuína com a burguesia e ao mesmo tempo  promover mudanças favoráveis aos trabalhadores e ao povo em geral.  Uma política de “Frente Ampla “ com a burguesia, como alguns propõem hoje para enfrentar ao Bolsonaro está sempre destinada ao fracasso, pois a burguesia está empenhada em manter sua riqueza e poder e se coloca , com o neoliberalismo, francamente a favor do imperialismo. Ela não irá “trair” a Frente Ampla, porque sua fidelidade está na “pátria grande” do Norte. E pode se utilizar da frente como mecanismo temporário, mas nunca como elemento substantivo de manutenção do poder.  

  1. O novo governo

O novo governo sandinista, denominado de Junta de Governo de Reconstrução Nacional (JGRN), começou a implantação   de seu projeto revolucionário transformando a estrutura do Estado Nicaraguense. O período que vai de 1979   até as eleições de novembro de 1984, foi liderado pela JGRN, que sofrerá   diversas modificações, tanto na organização executiva quanto no Conselho de Estado

O Programa de Governo  da Junta de Reconstrução Nacional, sob a denominação de  Unidade Nacional, buscava a criação de um consenso nacional estratégico baseado  em três fatores: o pluralismo político (Unidade Nacional), a economia mista e o não alinhamento em política exterior. Desde o início, portanto,  o governo revolucionário se assentava de um lado na participação popular e de outro no poder  da burguesia no aparelho administrativo. Esta era uma equação impossível de ser resolvida sem um predomínio de um dos lados, e com a continuidade da exploração da mais valia pela burguesia e a tentativa, que se revelou ilusória, de  não entrar em choque direto com os Estados Unidos.

Do ponto de vista econômico, o Programa visava reconstruir o país a partir da reativação da economia através dos setores chaves: agricultura e pecuária, sistema financeiro, comércio exterior e as condições de vida nos setores rural e urbano Também visava reduzir o desequilíbrio das transações comerciais externas e alterar a política fiscal e cambial e combater tanto a inflação como o desemprego. Outra ambição era constituir uma economia de caráter misto, ou seja, baseada na  convivência  da propriedade estatal e/ou social com a privada, imaginando que haveria a possibilidade de que essas duas formas de propriedade pudessem conviver harmonicamente e  promover o desenvolvimento do país  mediante investimentos de ambos os lados.

Houve eliminação apenas de uma das formas de propriedade burguesa, aquela pertencente  à   família Somoza. Ao mesmo tempo,  a produção agrícola deveria se voltar para  o abastecimento do mercado interno e os recursos naturais passaram a ser controlados pelo Estado que passou a ter a função exclusiva de explorá-los

Vídeo – Novo Governo Reconstrução – Agressões dos Contras  https://youtu.be/1lWm-fe5cr8

2.  A aliança da FSLN com a burguesia

 A aliança da FSLN com a burguesia emana de quatro ideias ilusórias a respeito do papel desta classe burguesa , que é congenitamente antinacional e antipopular  nos países atrasados como a Nicarágua nas questões fundamentais:

1) Imaginar que algumas organizações ou associações burguesas poderia ser agregadas ao Estado fruto da insurreição popular pelo fato de que que também lutavam para a deposição ,da ditadura e que tinham prestígio internacional, além da representatividade urbana de relativa importância.

2) Ilusão com a possível aceitação, pelos Estados Unidos, da nova ordem  emanada da  revolução se o novo Estado tivesse um caráter político pluriclassista. Isto significa que a Frente Sandinista não deveria instituir um  o governo com base na nova correlação de forças existente, mas mantivesse uma democracia burguesa clássica, apesar do poder não pertencer mais de fato à burguesia.

3) Ilusão dos sandinistas de que  teriam  a capacidade de dominar o processo revolucionário mesmo incluindo os partidos burgueses no pleito, o que , em princípio, colocava em risco todo o processo revolucionário.

4) Os sandinistas acreditavam que poderiam  desenvolver as forças produtivas e, portanto, de superar o atraso econômico que caracterizava a Nicarágua, mantendo o poder econômico da burguesia. Para os sandinistas, a burguesia, isto é, o capital privado, cumpriria essa função de transformar economicamente o país através do incremento de divisas que seriam produzidas mediante os impostos e o dinamismo da economia de mercado, sob a tutela do Estado.

No final de 1980 o Estado controlava  17,9% da produção agrícola, 30% das manufaturas, 44% do setor de serviços e 100% dos setores mineral, financeiro e de seguros. Isso significava, desta forma, que mais de um terço do PIB do país estava sob o controle estatal. Ou seja, muito pouco ou quase nada dos interesses da burguesia aliada foram afetados, isto é, não ocorreram expropriações de suas propriedades. Esta participação do Estado não teve alterações significativas até 1984, como mostra a tabela abaixo.

 SP – Setor Público

PP – Setor Privado

3.As Novas Estruturas  Sociais

As Áreas de Propriedade do Povo (APPs) foram definidas por meio do decreto nº 3, nas propriedades rurais confiscadas dos Somozas e de proprietários ligadas ao somozismo. Essas propriedades que representavam cerca de 20% das terras cultiváveis da Nicarágua não foram distribuídas para proprietários individuais, mas foram organizadas em cerca de 1.500 fazendas de propriedade do Estado que passaram a empregar por volta de 50 mil trabalhadores, representando cerca de 13% da mão de obra rural. Além da propriedade rural, foram confiscados e transformados em APP todos os bens incluídos nos decretos números 03 e 38, liquidando de vez as propriedades dos Somozas e de seus aliados.

 Neste contexto, surge a primeira proposta de Reforma Agrária dirigida pelo INRA (Instituto Nicaraguense de Reforma Agrária). Essa proposta, que vigorou até 1981 – quando entra em vigor a primeira Lei de reforma Agrária– teve um caráter absolutamente limitado, pois se circunscreveu às propriedades da família Somoza e de seus aliados mais diretos. Nesse primeiro momento, as terras afetadas se concentram na região do Pacífico, que era a região mais produtiva e representava a zona de maior dinâmica do setor agrário nicaraguense.

4.As Mudanças Econômicas

O controle total do Estado sobre o setor financeiro advém de sua nacionalização ocorrida no início do governo revolucionário. Foi uma medida acertada, pois estatizou também  o comércio exterior também foi estatizado, permitindo ao governo revolucionário um controle mais amplo sobre a economia. O monopólio sobre o comércio exterior permitiu ao Estado controlar as importações e as exportações, o que tornou possível direcionar e focar o processo de produção e de distribuição, especialmente do setor agrícola, para o abastecimento do mercado interno, diferentemente do regime somozista, cujo principal foco da produção agrícola era a exportação.

A nacionalização do setor financeiro tirou das mãos, principalmente do capital internacional, a capacidade de direcionar financeiramente a economia. A nacionalização promoveu grandes alterações nos rumos do setor financeiro. O Programa de Crédito Rural, que durante o somozismo tinha nível restrito de concessão de empréstimos, teve grande impulso após a Revolução. Em 1980 mais de 65% dos produtores cujos terrenos tinham o tamanho de até 10 manzanas receberam empréstimos, o que quer dizer que os pequenos produtores foram os mais beneficiados. O que se configurou nos primeiros momentos da Revolução Sandinista foi a construção de uma economia mista, isto é, o Estado e a iniciativa privada juntos no processo de consecução do projeto econômico. Neste sentido, o enfrentamento inicial do processo revolucionário não se deu contra a propriedade capitalista, recaindo mais no âmbito antioligárquico e antiditatorial.

A economia da Nicarágua concentrava-se na produção agrária e este setor reunia a maior parte da população nicaraguense. Os Sandinistas dedicavam uma atenção prioritária a essa produção. Existiam   pouco menos de cem mil operários de produção industrial na Nicarágua nessa   época. Esses operários ocupavam postos de trabalho em  fábricas, a grande maioria no setor de serviços. A indústria ocupava 15% da mão de obra no ano de 1977, o que, somada ao setor de mineração e de energia o totalizava 20% no final da década de 1970. No entanto, a participação desse proletariado na insurreição foi decisiva e ele continua sendo a base política da Revolução, enquanto o campesinato entra em conflitos com o governo, culminando com apoio maciço aos Contras na guerra civil.

No caso nicaraguense, a economia mista teve uma distinção premente e fundamental, pois ainda que o capital privado fosse dominante, o poder político, em última instância, não lhe  pertencia mais totalmente. Isso levou a um processo de redução dos lucros dos capitalistas, embora a exploração do trabalhador tivesse aumentado. O dilema do modelo de desenvolvimento que os sandinistas optaram estava em como justificar a exploração do trabalhador, isto é, exigir trabalho além do necessário para a sobrevivência, se a classe capitalista não mais controla o poder estatal.

Ou seja, o desenvolvimento capitalista requer acumulação de capital, e este, por sua vez, advém do processo de exploração da força de trabalho, isto é, da extração da mais-valia. Por isso, o governo revolucionário foi obrigado a conciliar com esta situação, apelando para uma mistificação ideológica da “economia mista” para iludir e enganar a classe trabalhadora. O capitalismo de estado não é nada senão uma sobrevivência do capitalismo com ajuda do Estado, sendo impossível que possa se conciliar os interesses da classe trabalhadora com este sistema.

Por outro lado, o intervencionismo estatal passou a limitar a circulação do capital, e estabeleceu uma concorrência com a empresa privada pelos resultados do processo de produção e apontava para a perspectiva de superação da própria economia capitalista, caminho com o qual a burguesia não podia, evidentemente, concordar. Desta maneira, a contradição entre revolução e restauração tornou-se um campo de batalha da luta de classes nicaraguense.

O êxito da reativação da economia , no entanto, deveu-se ao processo de endividamento do governo nicaraguense. Os créditos concedidos para a reativação da economia advieram sobretudo, de empréstimos externos, o que provocou um salto na dívida externa da Nicarágua, que em dois anos de governo quase dobrou de valor, passando de pouco mais de US$ 1.13 milhão em 1979 para US$ 2.2 milhões em 1981. Apesar de cerca de 60% da economia estar concentrada no setor privado, aproximadamente 80% dos investimentos no período foram de origem estatal, o que já demonstra um boicote velado da burguesia ao esforço econômico sandinista.

O grande erro dos  sandinistas foi não ter dado ao processo de industrialização, uma atenção especial, encarando-o apenas como uma extensão da produção de alimentos, com ênfase nas indústrias do ramo alimentício. O objetivo disso limitava-se a  beneficiar os produtos agrícolas e agregar valor às exportações, esquecendo-se o governo sandinista de que o fundamental seria o investimento na indústria de base, capaz de sustentar uma real industrialização do país. Dessa forma, o projeto econômico sandinista permaneceu devoto do setor agrário, diferentemente da maioria de outras revoluções, em especial as socialistas.

5. Pressão Imperialista e opção pela participação popular

Os Estados Unidos trabalharam com afinco a fim de conseguir fazer com que os revolucionários sandinistas se submetessem a seus interesses. No final de setembro e início de outubro de 1979, Daniel Ortega, na condição de presidente da JGRN, viajou a Washington, sendo recebido pelo presidente Jimmy Carter. Após o encontro, ele discursou na Assembleia Geral da ONU. O teor de sua fala foi na perspectiva de demonstrar que a revolução era ―não-alinhada, isto é, não era aliada nem do bloco socialista ou do capitalista, uma posição que se revelou inviável para todos países atrasados que assim se colocaram.

De qualquer forma, em novembro de 1979 foi solicitada junto ao Congresso norte-americano ajuda à Nicarágua no valor de 75 milhões de dólares em um empréstimo parcelado. Desse valor, 5 milhões de dólares seriam doados.  Com o objetivo de assegurar a permanência da burguesia no governo, os Estados Unidos, condicionaram a concessão do empréstimo à manutenção na Unidade Nacional, ou seja, a manutenção da Frente Ampla. Aliás, em outubro de 1979 e fevereiro de 1980, líderes da COSEP, principal entidade empresarial do país, fizeram visitas a Washington para encontros com membros do Congresso e do governo norte-americano.

A FSLN reagiu a essa atitude da burguesia, que atentava claramente contra a soberania nacional, e elegeram a busca da hegemonia do processo revolucionário como objetivo principal, o que se materializaria no controle dos principais postos no governo revolucionário. Para isto apelaram para a mobilização de suas bases populares. A FSLN se impôs sobre os outros segmentos políticos, sobretudo a burguesia, com o intento de conseguir protagonismo total. Na convergência entre Estado e sociedade civil, o objetivo era fazer com que a última, impulsionada pelos sandinistas,  tivesse controle sobre o primeiro.

No entanto o que ocorreu foi um aumento do comando de poder estatal da FSLN sobre a sociedade civil, em especial os setores populares. As ocupações de terras do início do processo revolucionário foram freadas, as reinvindicações salariais também foram coibidas ―em nome de uma política salarial que tinha que fazer parte de um plano centralizado.

Os sandinistas buscaram também restringir o poder da burguesia sobre o Estado, retirando , no início de 1980, Alfonso Robelo e de Violeta Chamorro da Junta de Governo, os quais foram substituídos por Arturo Cruz, economista que fora presidente do Banco Central e membro de Los Doces, e Rafael Córdoba, advogado, ambos membros do Partido Conservador.

Fundamental também para que a FSLN tivesse receptividade e conseguisse hegemonizar o processo revolucionário foi a Cruzada Nacional de Alfabetização (CNA) realizada no ano de 1980, denominado de ―Ano da Alfabetização. Concebendo a educação como instrumento de vital importância para a formação política, assim que assumiu a chefia do processo revolucionário, a Frente Sandinista fez da educação seu principal instrumento de construção de uma ideologia revolucionária. Cerca de 50,3% dos nicaraguenses acima de 10 anos eram analfabetos, totalizando mais de 700 mil pessoas que não sabiam ler nem escrever. Na região da Costa Atlântica a taxa de analfabetismo chegava a 78%. O censo feito em outubro de 1979 detectou ainda que havia cerca de meio milhão de pessoas alfabetizadas que tinham baixíssimo nível educacional – haviam sido apenas alfabetizadas ou apresentavam apenas os primeiros anos de ensino. Ao final da campanha, mais de 400 mil pessoas foram alfabetizadas, reduzindo a taxa de analfabetismo para cerca de 13% da população

Video – Cruzada Nacional de Alfabetização –https://youtu.be/gc3JIW-ij9w

6. A Reforma Agrária

A Lei de Reforma Agrária teve um aspecto  central: manter os interesses da ―burguesia “patriótica”, pois apenas uma pequena parcela dela tinha propriedades superiores a 500 manzanas, que foi o piso estabelecido pela lei para desapropriações. Como eram terras produtivas, também não foram incluídas nos critérios de abandono ou ociosidade. Ademais, demonstrava um caráter mais antioligárquico do que anticapitalista. A preocupação principal da reforma agrária era expropriar grandes propriedades, e estas, por sua vez, em sua maioria pertenciam à família Somoza ou a seus aliados mais próximos.

 Neste sentido, a revolução sandinista nunca se colocou contrária à propriedade privada, mas apenas avessa a uma variante da mesma, isto é, grandes propriedades particulares ou vastos latifúndios O governo, sob a hegemonia sandinista, destinou investimentos maciços para o setor agropecuário. Mediante os empréstimos concedidos aos campesinos individualmente, aos grandes produtores e as cooperativas ligadas as APPs, em média, o governo investiu mais de 6,5% do PIB no setor agropecuário entre 1980 e 1984. Contudo, esses investimentos foram destinados aos médios e grandes produtores rurais e a áreas administradas pelo Estado.

7. Os Estados Unidos e os contras: a formação da Contrarrevolução  

O empréstimo de  75 milhões de dólares, segundo a proposta norte-americana, seriam destinados não para o governo sandinista, mas para o mercado, isto é, para a iniciativa privada nicaraguense. Do total, 40% teria como destino órgãos de serviços voluntários não oficiais e os outros 60%, o custeio de importações para o setor privado da economia. Isso já demonstra o interesse de fortalecer a burguesia para que ela tivesse primazia na economia da Nicarágua. De qualquer forma, o governo norte-americano ofereceu ajuda ao governo revolucionário na perspectiva de constituir uma aproximação, o que eventualmente possibilitaria um direcionamento do processo revolucionário.

O estopim para o fim da lua de mel entre os sandinistas e a burguesia foi a proposta sandinista de aumentar os membros do Conselho de Estado de 33, como estabelecia o Plano de Governo de Reconstrução Nacional, para 47 membros. Em uma reunião feita no dia 16 de abril de 1980, com a ausência de Daniel Ortega, a votação terminou empatada: Alfonso Robelo e Violeta Chamorro votaram contra e Sergio Ramírez e Moisés Hassan a favor. A decisão, contudo, acabou sendo pelo aumento.

A resposta a esse maior controle dos sandinistas sobre o governo foi a ruptura completa da burguesia com a Revolução , passando com armas e bagagens para o lado da contrarrevolução. Essa contrarrevolução interna, só se fortalece porque tem  o apoio do governo norte-americano e  constituirá uma “frente ampla” agora  de oposição à Revolução Sandinista

Surgiram, então, uma série de organizações claramente voltadas para a oposição violenta ao governo. Durante o período 1979-1984, vão agir inicialmente para conspirar contra o  governo. As  seguintes organizações se constituíram nesse período:

  1. Força Democrática Nicaraguense (FDN), comandada por Enrique Bermúdez, um coronel da Guarda Nacional, antigo aliado norte-americano que participou da invasão de Santo Domingo em 1965;
  2. Forças Armadas Revolucionárias da Nicarágua (FARN), liderada por Fernando Chamorro Rapaccioli, parente de Joaquín Chamorro e que fora chefe do Estado Maior do governo  revolucionário em 1979. Ele foi o fundador do Partido Social Democrata (PSD), que surgiu como resultado da fissão do Partido Conservador.
  3.  Aliança Revolucionária Democrática (ARDE), formada em 1982, resultante da aliança entre o Movimento Democrático Nicaraguense (MDN) de Alfonso Robelo, ex-membro da JGRN e a Frente Revolucionária Sandinista (FRS), fundada por Edén Pastora, um ex dirigente da FSLN, o Comandante Zero, que conduziu a invasão ao Palácio Nacional em agosto de 1978. Edén Pastora, do governo revolucionário em julho de 1981, exilou-se na Costa Rica e em abril de 1982 anunciou que lutaria contra a revolução, tendo como alvo principal a DN da Frente Sandinista.
  4. , Outra organização contrarrevolucionária era a MISURASATA, que foi estruturada por um pastor morávio de nome Steadman Fagoth, que fora membro do Conselho de Estado
  5. A principal organização deste período foi a FDN com bases em Miami , EUA e Honduras, para onde migrou a elite política e econômica da Nicarágua que havia fugido em decorrência do triunfo revolucionário. Essa organização teve como comandante Adolfo Calero, a partir de dezembro de 1981, como parte da  (re)estruturação exigida pela CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos). Adolfo Calero era gerente da Coca-Cola em 1979, foi diretor da COSEP e secretário do Partido Conservador, e o governo sandinista afirmava que era agente da CIA desde 1961, quando desempenhava a função de diretor da Câmara de Indústria e membro da Fundação Nicaraguense para o Desenvolvimento. Enrique Bermúdez, a partir desse momento, assumiu a função da direção operacional e técnica da organização, pois tinha vasta experiência militar e conhecimento de engenharia.

A Contrarrevolução, contudo, teve capacidade operativa efetiva apenas a partir da intervenção norte-americana, sobretudo depois de 1981, com a posse de Ronald Reagan. A primeira ação de Reagan na presidência, em relação à Nicarágua, foi não conceder a última parcela de 15 milhões de dólares de um empréstimo no valor total de 75 milhões aprovados na segunda metade de 1980, ainda no governo Jimmy Carter (1977-1981). Ainda neste  ano, o governo norte-americano comunicou que não concederia mais de 9,5 milhões de dólares, cujo objetivo seria a compra de trigo . Em 1982, o governo americano faz um gigantesco bloqueio do empréstimo de 500 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que tinha sido negociado com o Governo nicaraguense.

A partir dessa época vão se suceder verdadeiras operações de guerra financeira ,com o impedimento de acesso a empréstimos de estrangeiros, mas também operações bélicas como  o financiamento e treinamento militar de guerrilheiros, a guerra ideológica maciça usando os meios de comunicação, o apoio logístico aos contras e as intervenções militares diretas impetradas pelos Estados Unidos. Estas operações começam a abalar o  processo revolucionário nicaraguense, pois o governo norte-americano age em dois fronts: externamente com ações do próprio governo americano e internamente apoiando fortemente a contrarrevolução interna. Sucedem-se também a concessão de vultosos recursos para financiar os contrarrevolucionários. Em 1981, a CIA, destinou quase 20 milhões de dólares para os contras a título de operações secretas.

Contras em treinamento

Em dezembro de 1982, mais 30 milhões de dólares foram concedidos, ao passo que em 1983 mais de 24 milhões foram destinados a apoiar direta ou indiretamente as ações militares dentro da Nicarágua . De acordo com o relatório apresentado no Tribunal Permanente dos Povos (TPP), que se reuniu em Bruxelas, na Bélgica,  em 1984, do início do ano de 1981 até setembro de 1984 foram registrados 922 combates, 345 ataques, 289 infiltrações, 42 casos de rapto, 30 assassinatos, 64 casos de sequestro, 98 ações de sabotagem e 445 provocações, totalizando 2.475 atos de agressão

8. A ofensiva Ideológica

O governo estadunidense justificava as intervenções como única forma de deter  o expansionismo soviético, que poderia dominar, após Cuba, toda a América Central. Desta maneira, aparentemente os países “democráticos”  da América Central estavam sob ameaça   externa , tornando assim imprescindível municiar lhes com recursos militares e materiais para que pudessem se defender. Fazia parte desta intervenção a instalação  de mídia radiofônica clandestina em Honduras e na Costa Rica, que transmitiam mensagens mentirosas sobre a situação na Nicarágua.  

Outra frente de oposição ao governo sandinista, que se tornou grande aliada da contrarrevolução, foi a alta hierarquia da Igreja Católica. Antes do triunfo revolucionário havia aparentemente uma relação de simpatia entre a Igreja e os insurgentes sandinistas. Quando se instituiu o governo sandinista e se iniciam as medidas contra os grandes proprietários, as estatizações , levando ao enfrentamento entre os Sandinistas e as forças burguesas, a alta hierarquia da Igreja tomou uma posição de apoio à burguesia e aos contrarrevolucionários e de crítica à FSLN.

A partir de janeiro de 1980 os conflitos entre a alta hierarquia da Igreja e o governo sandinista se aprofundaram. Em março a hierarquia da Igreja passou a exigir que os sacerdotes que tinham cargos no governo abandonassem seus postos: Miguel D‘Escoto, Ministro das Relações Exteriores, Edgar Parrales, Ministro do Bem-estar Social e Ernesto Cardenal, Ministro da Cultura. Os religiosos, entretanto, se recusaram a abandonar o governo.

A verdade é que a Igreja Católica sempre age dessa forma, se aliando aos setores mais reacionários da burguesia e das classes dominantes em geral. Tem sido assim mais recentemente, quando a Igreja apoiou o Golpe na Bolívia  e se colocou contra as mobilizações populares no Chile, na Colômbia e no Peru. No caso dos sandinistas , Igreja assumiu no decorrer do processo revolucionário uma postura de ferrenha oposição ao governo sandinista. A personagem mais importante desse posicionamento  foi o arcebispo de Manágua, que a partir de 1985 tornou-se Cardeal, monsenhor Miguel Obando y Bravo. Esse sacerdote portou-se como um verdadeiro militante religioso da contrarrevolução e porta voz de combate ao governo sandinista

A hierarquia eclesiástica emitiu várias declarações oficiais durante todo o período sandinista em que acusou e lutou contra o governo. Entre elas,  há quatro que tiveram uma grande repercussão. A primeira, realizada em 18 de fevereiro de 1982, na qual denunciaram “graves violações dos direitos humanos do povo misquito”. Uma acusação que se revelou mentirosa e tendenciosa. A segunda, em agosto de 1983, por meio da qual rejeitaram o serviço militar obrigatório, cujo projeto estava, então, no Conselho de Estado, por considerar que o exército nicaraguense tinha caráter partidário. Com essa declaração a hierarquia da Igreja mostra seu caráter antinacional e claramente contrarrevolucionário.

A terceira vai tentar interferir nas eleições gerais de novembro de 1984, dizendo que tinha sérias reservas sobre as eleições, da mesma forma que criticava as “eleições” promovidas por Somoza.  E a quarta , feita em Miami em janeiro de 1986 pelo Cardeal Obando e pelo Bispo Vega, foi uma declaração que desqualificou o veredicto da Corte Internacional de Justiça de Haia, que acusou os Estados Unidos de intervir na Nicarágua. Dessa forma a Igreja se colocou como defensora do imperialismo estadunidense. Pior ainda, a Igreja defendeu o pacote de ajuda de 100 milhões de dólares que o Congresso dos Estados Unidos aprovou (por uma margem de 12 votos) para “ajuda humanitária” destinada aos Contra, sugerindo que estes representavam o povo nicaraguense contra a pretensa “pressão militar” dos sandinistas.  

O papel desempenhado pela Igreja Católica nos processos revolucionários ou mesmo reformistas da América Latina, tem sido sempre o mesmo. A alta hierarquia se revelou estar sempre ao lado da burguesia e do imperialismo contra os interesses nacionais e sociais dos trabalhadores e do povo. Somente uma retomada do movimento das CEBs e da Teologia da Libertação poderá redirecionar o papel da Igreja nos processos de transformação social.

 Para o governo, os custos totais da agressão contrarrevolucionária até  1984 ultrapassaram a soma de 2,4 bilhões de dólares. Estão incluídos, por exemplo, os danos materiais de infraestrutura, da produção industrial e agrícola, os embargos norte-americanos, a redução estimada do PIB Diante desse cenário de guerra, Colômbia, Venezuela, Panamá e México criaram, em janeiro de 1983, o Grupo de Contadora, que recebeu o apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA), da Organização das Nações Unidos (ONU), do grupo dos países Não Alinhados, da Internacional Socialista e da Comunidade Europeia. O objetivo dessa organização era costurar acordos de paz na região centro-americana que vivia processos revolucionários em El Salvador, na Guatemala e na Nicarágua

Os Estados Unidos se colocaram violentamente contra esse Grupo, simulando apoiá-lo. Na verdade  a iniciativa de Contadora se confrontava com as agressões  imperialistas e, portanto, era encarada como um questionamento ao status quo estadunidense. A proposta fundamental de Contadora era a defesa da autodeterminação dos povos, ou seja, que os problemas latino-americanos, e neste caso específico, centro-americanos, fossem resolvidos por eles mesmos

O triunfo revolucionário sandinista e as medidas transformadoras subsequentes colocaram em xeque a presença do capital transnacional norte-americano, visto que o novo governo intentou operar uma mudança no caráter de inserção da Nicarágua no cenário internacional, capaz de estabelecer relações econômicas e comerciais com outros países e blocos. A perspectiva dos sandinistas era romper com a dominação imperialista dos Estados Unidos, que englobava completamente a economia  nicaraguense. A guerra contrarrevolucionária elege seu objetivo fundamental a derrubada do governo oriundo da revolução, mediante o solapamento de suas bases estruturais Os EUA somente desejam  destruir a economia, degradar as condições sociais de vida, desarticular politicamente o governo e exigir mobilização de pessoal e de recursos econômicos para a defesa nacional, o que por sua vez afeta o setor produtivo. Além disso a guerra dá bases para a  constituição de um polo de poder alternativo ao governo revolucionário.

O objetivo dos sandinistas, por outro lado, era  demonstrar que a revolução, ou na linguagem sandinista, a hegemonia popular prevaleceria e o imperialismo seria derrotado. Isso só seria possível com a ampliação da  democracia popular. Neste sentido, o objetivo capital da FSLN era não permitir a ampliação do espaço de atuação da oposição burguesa, mediante a (re)organização do aparato administrativo do Estado.

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