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Ecosys no.8: As Estratégias de Biden

Boletim Econômico Ecosys no. 9

Produção Industrial no 3º. Trimestre : a crônica de um fracasso anunciado.

Prof. Dr. Ricardo Rabelo

Quando se analisa os dados da produção do 3º trimestre deste ano, o que se tem são os resultados de uma política econômica fracassada, fruto da falta de um projeto de governo e de país pelo governo Bolsonaro.
Um país que passou por um processo de retomada da industrialização exitoso, ainda que com problemas no período Lula/ Dilma, hoje amarga os destroços em que se transformaram as indústrias no pais. A questão do processo de desindustrialização do Brasil se refere a problemas estruturais, aos quais se somam os conjunturais. Nesse ano temos tido uma verdadeira demolição da indústria, com fábricas importantes fechando suas portas e gigantes multinacionais retirando o país do seu mapa de investimentos produtivos. De polo dinâmico da economia, a indústria no Brasil é uma pálida imagem do que já foi tanto no passado, como na primeira década do século XXI. Alguns autores pretendem que é um processo inevitável, que já ocorre nos países imperialistas desenvolvidos há anos. Essa teoria fantasiosa , principalmente após a pandemia, já não pode enganar mais ninguém. Ora, a China ameaça se tornar em primeira potência mundial em função de ter dado prioridade à produção industrial, os países imperialistas quebram os paradigmas neoliberais com programas de recuperação econômica onde o centro é a indústria como no “America Backing Better “ de trilhões de dólares dos EUA ou no programa claramente de reindustrialização de cerca de 20 bilhões de euros da França. Enquanto isso, no Brasilo governo continua acreditando na austeridade fiscal e só se fura o teto de gastos para tentar dar folego à candidatura de um Bolsonaro “mais do mesmo”. E , em função disso, tem-se resultados semelhantes ao que se obtém no conjunto da atuação desse desgoverno: a terra arrasada.

A Produção Industrial Brasileira no último período

De acordo com o IBGE , a produção industrial brasileira teve crescimento negativo de 0,4% em setembro, na comparação com agosto, sendo esta a quarta retração mensal consecutiva. Com isso, em todo o terceiro trimestre deste ano a indústria apresentou redução da produção.
Em função desse brilhante desempenho, o setor industrial se desloca para um nível de produção 3,2% abaixo do nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020, e 19,4% abaixo do nível recorde, registrado em maio de 2011.

Fonte: IBGE

Na comparação anual em relação a setembro de 2020, a indústria teve queda de 3,9%.
No ano, o setor permanesce com crescimento de 7,5%. Em 12 meses até setembro, há um crescimento de 6,4%, contra alta de 7,2% nos 12 meses imediatamente anteriores, mostrando o comprometimento do dinamismo da indústria.

Fonte: IBGE

As maiores quedas
Houve taxas negativas no setor de bens intermediários ( -0,7%), de Bens de consumo duráveis(-0,2%) e de Bens de capital (-1,6%). Em termos de subsetor, a maior influência na queda do índice geral de setembro foram as quedas da produção de produtos alimentícios (-1,3%) e de metalurgia (-2,5%).
Há, portanto, uma queda de dinamismo generalizada na indústria, cuja produção caiu em sete dos nove meses até agora pesquisados, embora a retração tivesse sido mais concentrada em poucas atividades.

Por outro lado, a indústria apresentou queda de 1,7% no 3º trimestre na comparação com o 2º trimestre – o terceiro recuo seguido na comparação com os 3 meses anteriores.
Frente ao mesmo período do ano passado, houve queda de 1,1%.

Fonte: IBGE

Com esse quadro desfaz-se a fantasia de uma certa recuperação da indústria no início do ano, em especial o fantástico crescimento de 22, 7% devido ao efeito de comparação com uma base muito deprimida pela pandemia. Na verdade o centro da desaceleração geral da indústria é o setor de bens de consumo duráveis, em outras épocas o setor dinâmico por excelência, que passou de um crescimento de 3 dígitos para uma queda de 1,9% neste 3º. Trimestre.

A desaceleração em Curso

Em termos de perspectivas da economia, o Ministro da Economia Paulo Guedes teve sua tese da recuperação em V da economia totalmente desmentida. Outros economistasapresentaram a tese da recuperação em raiz quadrada, que também não tem se confirmado.
Na verdade, se depender da indústria, teremos uma recessão e talvez até uma depressão. Considerando as atividades industriais, apenas 9 das 26 superaram o patamar, enquanto 17 ainda não recuperaram as perdas acumuladas desde o começo da pandemia.
A indústria automobilística é a que vem sofrendo com a falta de insumos, tendo crescido 0,2% em setembro mas, na comparação com dezembro, acumula queda de 22,6%, operando 19,4% abaixo do nível de fevereiro de 2020 .

Por outro lado, das grandes categorias da indústria, apenas a de bens de capital superou, em setembro, o patamar pré-pandemia, produzindo 15% acima do observado em fevereiro de 2020. Bens de consumo duráveis é a que mostra um desempenho menor em relação ao nível pré-crise, funcionando 21,8% abaixo. Já bens intermediários e bens de consumo semi e não duráveis trabalham, respectivamente, 0,1% e 0,6% abaixo.

Há um indicador que mede o espalhamento do crescimento na fabricação dos produtos industriais, o índice de difusão. Assim a perda de dinamismo da indústria é evidenciada, também, pela queda do índice de difusão. Depois de uma série de 12 meses seguidos em que mais da metade dos 805 produtos analisados registraram aumento de produção, em setembro essa alta foi observada apenas em 43,5% deles.

A crise é geral

A indústria tem sido prejudicada em 2021 pela falta de insumos e pela alta nos preços das matérias-primas e de custos como o da energia elétrica.
A inflação em alta persistente, a crise hídrica que pode levar a um apagão, o desemprego elevado tem levado os analistas a reduzir as projeções do PIB de 4,97 % para 4,94%. Dificilmente se chegará à metade destes indices.

Nos outros setores da economia o desempenho também é sofrível. O comércio varejista, que de alguma forma conseguiu obter alguns meses de crescimento em 2021, não recuou tanto quanto a indústria nos últimos meses, mas em setembro deste ano, em seu conceito ampliado, encontrava-se com um faturamento real 2,6% menor do que o de dezembro de 2020 e 1,7% abaixo do pré-pandemia. Ou seja, também perdeu o efeito positivo que o auxílio emergencial e as demais políticas emergenciais ajudaram a conquistar na segunda metade do ano passado.
Por outro lado , o setor de serviços, que custou a recuperar algum crescimento, já que a segunda onda de contágio pelo coronavírus impediu a normalização de muitas de suas atividades, por enquanto apresenta menos indícios de queda, mantendo um viés de alta. Em setembro deste ano, apesar de sua queda frente ao mês anterior, seu faturamento real ficou 7,1% acima do patamar de dezembro de 2020 e 3,7% superior ao nível pré-pandemia. Isso quer dizer que, ao contrário do comércio e da indústria, 2021 tem sido um ano favorável aos serviços, em grande parte, devido ao avanço da vacinação contra a Covid-19.
No 3º trimestre deste ano , em relação ao mesmo período do ano passado, os serviços cresceram +15,2%, devido as bases de comparação ainda deprimidas. Apesar de que todos os seus ramos tenham apresentado crescimento nesta base de comparação, ainda há muitas dificuldades a serem enfrentadas em alguns deles para que retornem a níveis de faturamento pré-pandemia, como por no transporte aéreo (-17,6%), nos serviços prestados às famílias (-16,2% ante fevereiro de 2020) e nos serviços administrativos e complementares (-4,4%), que em geral são compostos por atividades menos qualificadas e terceirizadas pelas empresas.
Um Governo irracional
Não há uma ação do Governo que possa corrigir esse curso da economia rumo à recessão. O governo tem a estranha habilidade de destroçar possíveis dinamismos da economia, como o programa de privatização da Petrobrás em que esquarteja a empresa e lhe retira os setores mais geradores de valor agregado. Houve até a simples extinção de uma fábrica de semicondutores, ou seja, exatamente o setor em que há mais problemas de escassez no mundo. Rejeita os investimentos chineses, que estão se direcionando, na América Latina, para a Argentina e outros países de economia menos desenvolvida. No caso do 5G resolve fazer um investimento estatal para não usar a tecnologia mais avançada do mundo, que é a da Huawei, ou de outras empresas chinesas. Outro setor que começa a mostrar dinamismo, que é o da economia verde, o Governo “passa a boiada” para deixar o meio ambiente ser destruído pelo que há de mais violento: a mineração e a pecuária. O Agronegócio que parece ser a vocação do atual Governo, se desenvolve com uma concentração de renda e de capital que eliminam a possibilidade de ser um setor dinâmico, além do tamanho diminuto do setor em relação ao PIB. Finalmente, elabora-se na Câmara, sob auspícios do bloco governista, um Código de Mineração que entrega às mineradoras o poder total sobre o setor que destrói totalmente o meio ambiente onde atua e não gera qualquer valor agregado para a economia, se resumindo a exportação do minério bruto.

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