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Jornal Info no. 10

A Nicarágua na encruzilhada – Parte I

                                                                                                                         Prof. Dr.     Ricardo F. Rabelo

                A Nicarágua é um pequeno país na América Central, banhado ao mesmo tempo pelo Oceano Atlântico e Oceano Pacífico. A história da Nicarágua, no entanto, é marcada pelo peso do imperialismo estadunidense de forma frequente e contundente . São invasões, armadas, deposição de presidentes, e até mesmo uma guerra , buscando  manter as estruturas de dominação e opressão que  submetem seus povos à   miséria e o subdesenvolvimento ao longo dos séculos. Mas ,por isso mesmo, esta história é também uma história de  resistência persistente a esta dominação, e por muitas rebeliões  que  resultaram , na década de 70 do século XX  a uma grande e vitoriosa Revolução – a Revolução Sandinista. Neste mês, no próximo dia 7 de Novembro, será realizada uma nova eleição para a Presidência da República, que vem sofrendo intensa ação  do imperialismo estadunidense, visando desqualificar e deslegitimar o processo eleitoral.

Este artigo busca mostrar as raizes estruturais e históricas da violenta dominação a que foi submetido este povo e que hoje sofre um novo tipo de guerra, a chamada guerra híbrida cujo objetivo é destruir as conquistas  e valioso significado histórico da Revolução Sandinista. Ele terá várias partes, que serão publicadas semanalmente,  chegando até os dias atuais.

A Nicarágua está localizada no istmo centro-americano, limitado por Honduras ao norte e Costa Rica ao sul, ao leste pelo Oceano Atlântico e ao oeste pelo Oceano Pacífico. O país é formado   por duas grandes influências  culturais: a Chibcha e a Mesoamericana. As comunidades étnicas vinculadas  à cultura mesoamericana, na qual o poder estava concentrado em um líder e sua família , se fixaram na costa do Pacífico. As regiões do Pacífico e Central vão ser submetidas  à colonização espanhola  a partir de 1502. A Costa do Caribe foi ocupada por grupos da influência cultural Chibcha, identificada pela processo de decisão em grupo . A colonização inglesa foi imposta nesta área do país. A coroa espanhola não conseguiu estabelecer uma relação de autoridade com as áreas Chibcha da Nicarágua, exercendo seu poder colonial somente no Pacífico e em parte do centro do país. A divisão cultural e racial entre o Pacífico e o Caribe permanece até os dias de hoje.

A Nicarágua possui uma localização estratégica  na centro fronteira mundial que divide as regiões ocupadas pelos países desenvolvidos e o chamado terceiro mundo, muito adequada à circulação de mercadorias e do capital. Como  rio San Juan, que nasce no Mar do Caribe e cruza  grande parte do país ligando-se com o grande lago Cocibolca, cria as condições geográficas  que fazem economicamente viável a criação de um canal que liga o Atlântico ao Pacífico.

As grandes potências do hemisfério norte, em especial os Estados Unidos  se interessaram pela construção desse canal interoceânico na Nicarágua, fazendo do país  uma peça fundamental nos conflitos entre esses países pelo controle das rotas marítimas mundiais. O canal tem sido um motor de divisão interna que tem agravado as relações de conflito entre o Pacífico e o Caribe, pois o Grande Canal ameaça os territórios tradicionais indígenas e afrodescendentes da costa caribenha e provoca conflitos de terra e invasões desses territórios ancestrais por vários grupos nacionais e internacionais com interesses econômicos diversos.

A Nicarágua passou por dois processos de independência em relação àdominação espanhola., o primeiro quando a Federação Centro-Americana foi criada em 1824, e o segundo quando o país deixou a Federação para se tornar uma república independente em 1838. Nos anos de 1821 a 1824 esse país da América Central fez parte do Primeiro Império Mexicano e de 1824 a 1838 essa nação integrou a Federação das Províncias Unidas da América Central que eram compostas por Guatemala, Honduras, El Salvador e Costa Rica.

A historia da Nicarágua se confunde com a história do nascente imperialismo estadunidense. Os Estados Unidos não hesitam em fazer intervenções militares diretas  sempre que seus interesses  eram desafiados pelas elites locais. Já no processo de independencia há uma intervenção direta dos Estados Unidos, através de uma negociação de territórios nicaraguaenses com o Império Britânico.   A região Chibcha Nicaraguense, mais conhecida como La Mosquitia, ainda era considerada um protetorado britânico e não era reconhecida como parte do Estado da Nicarágua. Em 1850, foi assinado o tratado Clayton-Bulwer negociado entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, o que levou à retirada dos britânicos da Costa da Mosquitia da Nicarágua.

Entretanto, este tratado determinou que as duas nações controlariam um canal projetado na América Central. Finalmente, os Estados Unidos adquiriram a concessão francesa no Panamá e construíram um canal neste país no final do século XIX. Para eliminar qualquer possibilidade de outra construção de um canal através da Nicarágua, os Estados Unidos impuseram o tratado Chamorro-Bryan em 1914. Este tratado estabeleceu o domínio dos EUA sobre os territórios nicaraguenses onde uma rota do canal poderia ser construída, e autorizou a instalação de bases militares e navais estadunidenses na Nicarágua usando como pretexto “ a proteção do Canal do Panamá” .

Os Estados Unidos usavam de manipulação das  burguesias locais para conseguir o atendimento de seus interesses, apoiando ora a burguesia conservadora,mais ligada a exploração das terras e produção agrícola, ora a burguesia  liberal, mais ligada ao comércio de exportação e importação. No período de 1853 a 1855  a burguesia conservadora assumiu o poder executivo, e a burguesia liberal não aceitou esse comando presidencial e em  1855 recorreu aos Estados Unidos  para derrubar esse governo através de uma  batalha  armada. Nesse contexto, aconteceu uma total destruição da soberania nicaraguense, pois um aventureiro estadunidense, William Walker.  participou dos combates e em 1856 foi “eleito” presidente da Nicarágua em uma eleição fraudada. A burguesia liberal, ciente do seu erro de pedir ajuda aos Estados Unidos da América, realizou uma guerra e derrotou William Walker em 1857.

O chamado Regime dos Trinta Anos (1857 a 1893) foi comandado pela burguesia conservadora da Nicarágua que era composta por membros da oligarquia de Granada e efetuaram um governo de política econômica liberal. O objetivo do Regime dos Trinta Anos foi de proporcionar um crescimento econômico do país através do aumento das exportações de café que era o principal produto dessa nação  e de outros recursos naturais de destaque como frutas exóticas, carne, pescado, tabaco, cana de açúcar e minério . Um desses minérios era o ouro que foi descoberto no fim do século XIX nas montanhas desse país na região da população de Siuna.

 Para a burguesia conservadora estabelecer um estrito controle da sociedade nicaraguense e aplicar a sua política liberal com segurança, esta  elaborou em 1858 a Constituição que atendia principalmente aos seus interesses da classe dominante da Nicarágua e contribuía pouco com o povo dessa nação . Portanto, a riqueza aumentava para poucos e a pobreza crescia cada vez mais com a política econômica liberal.

A partir de 1893 a burguesia liberal da Nicarágua conseguiu chegar ao poder através de uma revolta, que levou ao poder o presidente José Santos Zelaya. Zelaya fez um governo nacionalista e evitou de aumentar o poder econômico e político dos Estados Unidos da América sobre a Nicarágua. Ele não permitiu a construção do canal interoceânico pelos estadunidenses na Nicarágua para passagem de embarcações, evitou pedir qualquer ajuda para os ianques e começou a comercializar com a Inglaterra que era concorrente dos Estados Unidos da América. Essas ações de Zelaya provocaram a ira  imperialista  , e em 1907 os estadunidenses interviram para que a burguesia conservadora desse um Golpe de Estado e retirasse do poder o presidente Zelaya

Esses procedimentos dos Estados Unidos da América estiveram de acordo com a chamada Doutrina Monroe (1823), que determina que a América deve ser apenas dos americanos… do Norte. Para isso os países europeus devem  evitar de estabelecer novas colônias na América do Sul, América do Norte, América Central e Caribe, evitando de interferir nos assuntos dos continentes americanos e caribenhos. Portanto, com essa doutrina os estadunidenses tinham interesse de exercer poder político e econômico sobre os países da América  e Caribe.

De 1909 a 1933 a Nicarágua foi ocupada constantemente pelas forças militares dos Estados Unidos da América. Em 1909 os estadunidenses realizaram a primeira intervenção militar resultando no apoio estadunidense ao novo presidente da burguesia conservadora Juan Estrada para assumir o poder do governo . Porém, por ordem dos Estados Unidos da América, em 1911, Estrada renunciou à presidência e em seu lugar entrou o vice-presidente conservador Adolfo Díaz que aceitou as exigências estadunidenses de controlar o Banco Central, as ferrovias e a alfândega da Nicarágua.

Esses acontecimentos geraram a revolta da burguesia liberal que iniciou uma guerra civil contra a burguesia conservadora em 1912 .O presidente Díaz pediu ajuda aos Estados Unidos América e aconteceu a segunda ocupação militar estadunidense, com a participação principal dos fuzileiros navais (marines)  que dominaram os combatentes da burguesia liberal e permaneceram na Nicarágua até 1925 .

Vídeos

Reportagem da Telesur sobre Invasões estadunidenses na Nicarágua https://www.youtube.com/watch?v=fh8VZ-Z28wA

Os dois presidentes conservadores que sucederam Díaz foram Emiliano Chamorro (presidente de 1917 a 1921) e depois Diego Chamorro (presidente de 1921 a 1923), através de fraude eleitoral que  favorecia os membros desta importante  família  da oligarquia. Não é preciso dizer que ambos os presidentes atendiam fielmente aos interesses políticos e econômicos estabelecidos pelos estadunidenses.

Em 1923 Bartolemé Martinez assume a presidência da Nicarágua e tenta diminuir o  poder  político e econômico que os Estados Unidos da América tinham na Nicarágua. Como aconteceu das vezes anteriores, ele é imediatamente derrubado do cargo pelas tropas estadunidenses que conseguem forçar o retorno do conservador Adolfo Díaz que fica no poder até 1929 . Em agosto de 1925 as tropas estadunidenses se retiram da Nicarágua porque Díaz está como presidente e garante os interesses imperialistas desse país. Outro fator que tranquilizou os Estados Unidos foi a criação, em 1925,  da Guarda Nacional, que foi treinada pelos estadunidenses e teve como chefe Anastasio Somoza García . Dessa forma os soldados nicaraguenses e os chefes do alto escalão dessa força militar foram treinados para defenderem os interesses dos Estados Unidos da América.

Essa tomada da presidência por Díaz gera um descontentamento da burguesia liberal e do povo nicaraguense, que vivia em extrema pobreza  e continuava a ser um dos países mais pobres da América Latina, com predomínio da população agrícola. A partir de 1926 inicia-se  um conflito armado em que a burguesia liberal tenta tirar o poder da burguesia conservadora que atende os interesses dos Estados Unidos da América. Incapaz de derrotar militarmente a burguesia liberal, o presidente conservador Adolfo Díaz recorre novamente aos Estados Unidos e os fuzileiros navais estadunidenses voltaram ocupar a Nicarágua.

Formou-se um grupo de guerrilheiros contra a burguesia conservadora, comandados pelo general José Maria Moncada, pelo membro da burguesia liberal Juan Bautista Sacasa e pelo filho de agricultores que trabalhou em refinaria e em mina de ouro, o famoso Augusto Cesar Sandino .

Em 1928 os militares estadunidenses firmaram o Pacto del Espino Negro com o general Moncada e com o liberal Sacasa. O objetivo desse pacto era o desarmamento dos guerrilheiros. Incapazes de derrotar as forças militares estadunidenses os dois primeiros líderes se rendem em 1928, mas Sandino continua com seu grupo  nos combates contra os ianques e contra os membros da burguesia conservadora que agora possuía o forte exército da Guarda Nacional.

As eleições para presidente de 1928 e de 1933 foram supervisionadas pelos Estados Unidos, sendo que  o vencedor de 1928 foi o general e liberal Moncada (presidente de 1929 a 1933) e o vencedor de 1933 foi o liberal Sacasa (presidente de 1933 a 1936). Como se pode observar, os EUA manipulam  a seu favor ora a burguesia conservadora, ora a burguesia liberal.

Fuzileiros navais dos Estados Unidos da América durante a ocupação na Nicarágua no ano de 1933.

Sandino continuou os combates através da Libertação Nacional Sandinista que durou 6 anos, compreendida entre 1927 a 1933. Os combates aconteceram nas montanhas das florestas da Nicarágua e o exército Sandinista contou com agricultores, artesãos, operários e intelectuais da classe média. A Guerrilha de Sandino chegou a ter 6000 combatentes e apesar do armamento precário obteve diversas vitórias frente aos estadunidenses sendo que  em 1º de janeiro de 1933 os militares dos Estados Unidos se retiraram da Nicarágua. Em 2 de fevereiro de 1933 Sandino assina o acordo de paz com o presidente Sacasa, significando que os combates dos guerrilheiros da Libertação Nacional Sandinista terminariam.

Após a trégua da guerra, Sandino foi várias vezes na casa do presidente Sacasa discutir problemas sobre a Guarda Nacional e a relação perigosa de Anastasio Somoza García com os Estados Unidos. Em 21 de fevereiro de 1934, Sandino, seu pai e um colaborador saíram da casa do presidente Sacasa, mas foram detidos próximo do quartel do Campo de Marte pela Guarda Nacional, em seguida os três foram assassinados por ordem de Anastasio Somoza García que cumpriu a ordem da embaixada estadunidense de Manágua.

https://youtu.be/cksR0X8-1zc  – Video documentário do assassinato de Sandino

Após a morte de Sandino, os Estados Unidos intervieram para estabilizar o regime politico da Nicarágua. Foi feito um acordo básico da burguesia conservadora com a burguesia liberal, e criou-se um Exercito Nacional – a chamada Guardia Nacional Nicaraguense. O Chefe da Guardia , Anastasio Somoza García foi indicação do Embaixador Norte amaricano. Com o tempo,  o presidente Sacasa não pode conter o crescente poder de Somoza e da Guardia Nacional. Sua popularidade continuou a cair enquanto a frágil economia da Nicarágua sofria o colapso dos preços do café, devido à Grande Depressão e às alegações de fraude gezeralizada nas eleições para o congresso em 1934. Durante esse período, o poder de Somoza continuou a crescer, e ele criou relações com os antigos presidentes Moncada e Chamorro. No início de 1936, Somoza usou a Guardia Nacional para destituir oficiais locais leais ao presidente e substituí-los por seus aliados. Em 6 de junho, ele forçou Sacasa a renunciar, empossando vários presidentes de fachada até assumir a presidência no ano seguinte.

A ditadura Somoza, doravante um instrumento do imperialismo estadunidense,  foi muito violenta, incluía tortura e fuzilamento de pessoas contrárias ao seu regime político. A maioria do povo vivia em extrema miséria, contando com um péssimo sistema de saúde, ainda existia mais de 60% de analfabetos no país  e com alto índice de prostituição sexual. Durante todo o período dessa ditadura, de 1936 a 1979, os Estados Unidos apoiavam os procedimentos dos ditadores, contando que os interesses políticos e econômicos da Nicarágua estivessem alinhados com as exigências estadunidenses.

Em 1936 Anastasio Somoza García comandou um Golpe de Estado militar frente ao seu tio e então presidente Sacasa, vindo governar a ditadura de 1936 a 1956. O mandato do ditador foi interrompido em 1956 porque foi morto com tiros pelo poeta Rigoberto López Pérez  Imediatamente foi conduzido ao poder o filho de Somoza, Luis Anastasio Somoza Debayle, comandou a ditadura de 1956 a 1963, mas veio falecer de infarto do miocárdio em 1963. Então, o irmão mais novo de Luis, assumiu o poder ditatorial de 1963 a 1979, sendo Anastasio Somoza Debayle.

https://www.youtube.com/watch?v=xl3PzX34V34 – A história do Ditador Somoza e seus filhos, que lhes sucederam no poder.

O  poder político ficou mais fácil para a família Somoza e para os interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos da América porque essa família seguia as ordens dos estadunidenses. A ditadura militar somozista foi de 1936 a 1979, embora alguns pesquisadores considerem desde 1934 quando Sandino morreu porque Anastasio Somoza García aumentou seu poder durante o governo de Sacasa. Em 1936 Anastasio Somoza García comandou um Golpe de Estado militar frente ao seu tio e então presidente Sacasa, vindo governar a ditadura de 1936 a 1956. O mandato do ditador foi interrompido em 1956 porque foi morto com tiros pelo poeta Rigoberto López Pérez. Imediatamente foi conduzido ao poder o filho de Somoza, Luis Anastasio Somoza Debayle, comandou a ditadura de 1956 a 1963, mas veio falecer de infarto do miocárdio em 1963 (Pottinger, 2018). Então, o irmão mais novo de Luis, assumiu o poder ditatorial de 1963 a 1979, sendo Anastasio Somoza Debayle.

Referências  Bibliográficas

Elvir , Amanda Martínez , revisto por Acosta , María Luisa da Nicaraguan Science Academy- Nicaragua – Contexto e Governança Fundiária

Junior , Nelson Kautzner Marques  – Breve história da revolução Sandinista na Nicarágua in: REBELA, Revista Brasileira de Estudos Latino-americanos, v.9 no.2 mai/ago, 2019

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