Em entrevista à revista francesa Politique Internationale, Lula explica como Bolsonaro pode ganhar as eleições e como o país pode ser feliz de novo.

Luiz Inácio Lula da Silva – Há um provérbio milenar que diz que só se colhe o que se planta. Para obter uma boa colheita, é necessário um bom plantio, boa irrigação e cuidados regulares. Quem semeia democracia colhe democracia. Quem semeia autoritarismo colhe autoritarismo. É óbvio que Bolsonaro não estava preparado para se tornar Presidente da República. Ao longo de sua carreira política, inclusive quando serviu nas Forças Armadas brasileiras (1), sempre foi um provocador, um indivíduo que não aceita as regras do jogo, que não respeita as decisões coletivas., Que não admite isso. defende-se um ponto de vista diferente do seu. Ele não tinha nenhuma das qualidades exigidas para esta posição. Conseguiu subir ao topo do estado graças a um conjunto de circunstâncias que todos conhecem: a impossibilidade de se candidatar às eleições presidenciais de 2018, o processo iniciado desde 2014 contra o Partido dos Trabalhadores (PT) (2), o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Sem esquecer o papel deletério de parte da imprensa brasileira que tem se empenhado em desacreditar o discurso político. Todos esses fatores combinados levaram à eleição de Jair Bolsonaro como Presidente da República.

Para que este país seja feliz novamente, para que o Brasil mais uma vez seja um ator pleno no cenário internacional e inspire respeito novamente, é preciso aprender as lições do que aconteceu nos últimos anos. A primeira coisa que um presidente precisa adquirir é credibilidade tanto nacional quanto internacionalmente, com governos e investidores. Ao mesmo tempo, devemos assegurar que as políticas sejam previsíveis, que os cidadãos possam ter uma ideia clara do que vai ser decidido e que não sejam surpreendidos por medidas improvisadas ou discursos irresponsáveis. Os políticos devem ser julgados por suas ações e seu respeito pelas instituições democráticas. O Executivo deve construir relações harmoniosas com o Supremo Tribunal Federal e o Judiciário, com o Parlamento (Câmara dos Deputados e Senado), sem buscar submetê-los à sua vontade. Cada um desses poderes é autônomo dos outros. Ninguém deve dar ordens aos outros.